Um adeus...

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Um adeus...

Post by FilipeBrito. on Tue Sep 21, 2010 5:54 pm

Era uma vez, uma bis-avó e um bis-neto que viviam numa casa, no campo, felizes, contentes, enfim… não se podia desejar nada mais para esta avó e para este neto nasceu, sua mãe ainda era uma adolescente, não sabia o que era uma vida com filhos… Então a avó amava muito o seu neto, e cuidou-o, desde que nasceu.
Para o menino, esta avó era sua mãe! Dava-lhe de comida, mesmo incapacitada, doente, fazia-o sorrir, fazia-o ser um Homem. No fundo criava-o como um filho! Durante a caminha genealógica, o neto crescia, queria ir à rua brincar, saltar, rir, a base de uma criança, e a avó já velhinha, já incapacitada, mas com uma força de vontade de viver, levava-o á rua, sempre com um sorriso, podia-se dizer que esta bis-avó tinha um amor pelo seu bis-neto, que era incrível. Havia alturas quando o menino, feria-se, ou algo do género, ela preocupada, tratava dele. Para ele um sorriso, e o amor dela, curava a ferida.
(…)
Passaram-se os anos… Já rapaz, com os seus quatorze, quinze anos, ainda era criado por esta avozinha, já velhinha, mas claro, feliz por ver o seu neto a crescer feliz, forte.
A avó começou a piorar da sua doença, então as suas drogas era a sua vida, sem elas…
Então, houve alturas em que teve deitada na cama, durante dias e dias, não se podia levantar, e o seu neto é que a tratou dela, ele e a sua tia. Mas ele dava-lhe o comer, ajudava a levantar para andar. Parece que ajudava a aprender a andar (como a vida pode ser tão injusta). O seu rosto começou a modificar, o seu corpo alterou-se, e o seu neto chorava por ver aquilo a acontecer, e saber que um dia mais tarde, tinha-se que despedir. Mas para ele a perda, era uma coisa horrível, inaceitável. Passaram-se os dias… ele ajudava-a, ia a cama, levar-lhe o jantar preparado pela sua tia, ela já nem conseguia mastigar, (uma coisa horrível, imagino eu).
Foi-se andando…
Até que seu neto, já com os seus quinze anos, certos, ia de férias com os seus pais, sua bis-avó estava em casa com tia. No dia anterior da vaigem, à noite, sua mãe, diz: “…liga à tua avó! Mandar um beijinho e as melhoras…” e assim o fez…
“Olá avó, sou eu, como estás?”
“Mal…”
“Mas como assim, tas pior?”
“Filho, isto já não tem cura, vai se andando os dias, até chegar a hora…”
“Não digas, isso, quero que melhores! Era para te mandar um beijinho grande, que amanha vamos de férias… Gosto muito de ti”
“ Cuidado com o sol… Xau, beijinhos”
Desligou o telefone…
No dia seguinte, já a caminho, pararam para abastecer o carro, e tomar algo.
O telemóvel toca, sua mãe atende. “Que foi? Mãe? Porque que estas a chorar?”
“A tua avó…”
João, o bis-neto, no parque com a sua irmã, vê sua mãe a chorar a gritar, sentou-se no chão. Ele ficou sem reacção, solta uma lágrima e olha para o céu e diz: ” Olha por mim… Amo-te”
Ele corre, para sua mãe e pergunta o que se tinha passado, já sabendo, e entra no carro, sozinho e lembra-se dos episódios mais felizes passados com sua bis-avó, deitando lágrimas…
Cancelou-se as férias, voltaram a Lisboa…
João e sua mãe, foram a casa da sua bis-avó… Ao entrar ele sente logo a sua ausência, e vai à sala, senta-se no lugar onde sua bis-avó se sentava sempre e fecha os olhos e mais uma vez relembra-se da sua imagem, do rosto, dos olhos, do seu cheiro, do seu sorriso,…
Seu avô vem à sala e afirma-lhe: “Vês João, agora a tua avó já não está cá para tu brincares…”
Mais tarde… Seu velório, João, com um certo nervosismo, entra e depara com ela, deitada. Desvia o olhar, e chora como um bebé (é difícil, acreditem! Ver uma pessoa que nós amamos, estar ali, fechada para o mundo), mas ganhou coragem e voltou a olhar, seus olhos brilhavam de alegria e de tristeza, de alegria por saber que estará num lugar mais calmo, melhor para ela. E de tristeza por saber que não estará com ele fisicamente, mas sim psicologicamente. Ele deu-lhe um beijo de despedida e foi-se embora para a rua, chorar, soltar-se… Adeus…Álcina…Descança em paz!
Desde que faleceu, ele nunca foi ao cemitério. Porque? Porque para ele, elá está presente todos os dias na sua vida, no seu pensamento.
Ainda ele chora por ela...

“Estou-te grato por tudo…Amo-te!”

Para este rapaz, sua bis-avó era sua avó. Tinha duas avós para ele. Tratava-lhe como avó.